Vitamin A Saga, Portuguese Translation

A saga da vitamina A

Tradução de Vitamin A Saga, Sally Fallon e Mary G. Enig, PhD, 30 de março de 2002.

(http://www.westonaprice.org/health-topics/abcs-of-nutrition/vitamin-a-saga/)

Traduzido por Renato Alves.

Nota: Após a leitura deste artigo, por favor, leia também a seção Vitamin A, Vitamin D and Cod Liver Oil: Some Clarifications, em nossas Informações básicas sobre óleo de fígado de bacalhau e artigos de recomendações.

 

A descoberta da vitamina A e a história de sua aplicação no campo da nutrição humana é um relato de bravura e brilhantismo, representando a junção do que há de melhor na investigação científica com tradições culturais do mundo todo. E o desserviço deste conhecimento por parte dos ditadores da indústria alimentícia oferece uma triste lição sobre o uso de poder e influência para ocultar a verdade.

Um protagonista fundamental desta história fascinante é Weston A. Price, quem descobriu que a alimentação de povos tradicionais saudáveis continha, ao menos, dez vezes mais vitamina A do que a alimentação norte-americana de seu tempo. Seu trabalho revelou que a vitamina A é um dos diversos ativadores lipossolúveis presentes apenas em gorduras animais e necessários para a assimilação de minerais na alimentação. Ele notou que alimentos tidos como sagrados pelos povos que ele estudou, como manteiga produzida na primavera, ovas de peixes e fígado de tubarão, eram excepcionalmente ricos em vitamina A.

Todas as culturas tradicionais reconheceram que determinadas comidas eram necessárias para prevenção de cegueira. Em sua obra pioneira, Nutrition and Physical Degeneration, Weston Price conta a história de um explorador que, enquanto atravessava um planalto das Montanhas Rochosas, ficou cego por xeroftalmia, devido a carência de vitamina A. Desesperado, ele foi encontrado por um índio que lhe pescou uma truta e lhe deu para comer “a carne da cabeça e dos tecidos posteriores aos olhos e os próprios olhos” [1]. Após poucas horas, sua visão começou a retornar e, depois de dois dias, seus olhos estavam quase normais. Muitos anos antes das viagens de Weston Price, cientistas haviam descoberto que a fonte mais rica de vitamina A no corpo de um animal é a retina e os tecidos posteriores aos olhos.

Muitas culturas usavam fígado, outra fonte excelente de vitamina A, para vários tipos de cegueira [2]. Originalmente, o fígado era prensado contra o olho e, então, comido, em um ritual através do qual o paciente direcionava os poderes curativos do fígado ao órgão visual afetado. Os egípcios descreveram esta cura há, ao menos, 3.500 anos. Práticas semelhantes foram descritas na Rússia do século XVIII; na área rural de Java, em 1978; e entre os habitantes de Terra-Nova[1], em 1929. Outras culturas usavam o fígado de tubarão. Hipócrates (460-327 a.C.) prescrevia fígado embebido em mel para cegueira em crianças desnutridas. Textos assírios, datando de 700 a.C., e escritos medicinais chineses do século VII d.C. apontam o uso de fígado no tratamento de cegueira noturna. Um tratado hebraico do século XII recomenda pressionar fígado de cabra aos olhos e, em seguida, seu consumo. Na Idade Média, o médico holandês Jacob van Laerlandt (1235-1299) escrevera o seguinte:

Quem à noite não enxerga bem
Coma fígado de cabra
E, então, à noite, verá melhor[2].

A bravura da vitamina A

Cegueira noturna é um problema comum em marinheiros durante viagens extensas, mas, com o advento das grandes armadas marítimas européias, a sabedoria da terapia tradicional com fígado foi amplamente ignorada. Custou brava dedicação ao método científico confirmar a validade dos tratamentos antigos. O primeiro a fazer isto foi Eduard Schwarz (1831-1862), um doutor naval de uma fragata austríaca que foi enviada ao redor do mundo em uma exploração científica. Antes de sua partida de Viena, muitos médicos lhe pediram para testar o antigo remédio popular para cegueira noturna de fígado cozido de boi. Durante a expedição, 75 dos 352 homens desenvolveram aquele quadro. Sempre quando caia o anoitecer, eles perdiam sua visão e tinham de ser conduzidos como cegos. Schwartz os alimentou com fígado de boi ou de porco e descobriu que a visão noturna de todos os enfermos foi restaurada.

A cura foi um “verdadeiro milagre” – disse em seu relatório publicado, no qual afirmou enfaticamente que cegueira noturna era doença nutricional. Por causa disto, foi violentamente atacado pelos profissionais médicos, que o acusaram de “frivolidade” e “auto-engrandecimento”. Três anos após seu retorno da expedição, o médico desacreditado morreu de tuberculose. Ele estava com 31 anos de idade. O uso de alimentos ricos em vitamina A para tratamento de tuberculose ainda não havia sido descoberto.

Em 1904, o médico japonês M. Mori descreveu a xeroftalmia em crianças subnutridas, cuja alimentação consistia de arroz, cevada, cereais “e outros vegetais”. Xeroftalmia é um problema de saúde que progride de cegueira noturna a dissolução da córnea e, por fim, rompimento ocular. Ele tratou de crianças com fígado e óleo de fígado de bacalhau, obtendo resultados excelentes. De fato, ele descobriu que óleo de fígado de bacalhau era ainda mais eficaz do que fígado no restauro da função visual. Mori o descreveu como “um medicamento excelente, quase específico… De fato, na maioria dos casos, o efeito é tão rápido que, pela noite, as crianças com cegueira noturna já estão dançando por aí rapidamente, para alegria de suas mães”. Óleo de fígado de bacalhau também auxiliou a reverter ceratomalacia, um problema relacionado a carências nutricionais graves e caracterizado por ulceração córnea, extrema secura dos olhos e infecção.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, um médico chamado Bloch descobriu que alimentação contendo leite integral, manteiga, ovos e óleo de fígado de bacalhau curava cegueira noturna e ceratomalacia. Em um experimento importante, Bloch comparou os resultados quando alimentara um grupo de crianças com leite integral e outro com margarina como fonte única de gordura. Metade das crianças alimentadas com margarina desenvolveram problemas na córnea, enquanto que as crianças que receberam gordura de manteiga e óleo de fígado de bacalhau permaneceram saudáveis.

A descoberta efetiva da vitamina A é creditada a um pesquisador chamado E. V. McCollum. Ele estava curioso quando ao fato de que vacas alimentadas com trigo não se desenvolviam, tornavam-se cegas e davam à luz bezerros natimortos, ao passo que as alimentadas com milho amarelo não apresentavam problemas de saúde. O ano era 1907, e, neste período, os cientistas tinham condições de determinar o índice de proteína, carboidrato, gordura e minerais no alimento. O trigo e o milho usados nos experimentos de McCollum continham os mesmos níveis de minerais e macronutrientes. McCollum desejava saber se o trigo continha uma substância tóxica ou se havia algo faltando nele, mas que estava presente no milho amarelo.

Para resolver o enigma, McCollum teve a idéia de usar animais de pequeno porte, como ratos e camundongos, ao invés de vacas, para seus experimentos alimentares. Eles comiam menos, ocupavam menos espaço, reproduziam-se rapidamente, e poderia ser lhes dada alimentação controlada. Como muitas idéias boas, esta encontrou oposição considerável. McCollum trabalhava no Wisconsin College of Agriculture, e o reitor lhe dissera para “fazer experimento com animais economicamente viáveis. O rato era uma praga para fazendeiros!”. McCollum foi forçado a trabalhar secretamente no porão do Agriculture Hall, onde estudava os efeitos de vários tipos de alimentação em colônias de ratos. Ele descobriu que ratos alimentados com proteína pura, leite desnatado puro, açúcar, minerais e banha ou azeite de oliva não conseguiam crescer. Quando óleo de manteiga ou extrato de gema de ovo eram adicionados em sua alimentação, sua saúde era restaurada. Ele descobriu um fator lipossolúvel em determinados alimentos que era essencial para o crescimento e a sobrevivência. Este foi nomeado de “fator lipossolúvel A”, em oposição a outros fatores alimentares, chamados “hidrossolúveis B”.

A pesquisa de Osbourne e Mendel, publicada apenas cinco meses após os estudos de McCollum, descobriu que óleo de fígado de bacalhau apresentava os mesmos resultados da manteiga em estudos com ratos, confirmando, portanto, o trabalho antecedente de Mori, no Japão. Experimentos contínuos ajudaram os cientistas a determinar que a vitamina A era incolor, mas comumente associada, nos alimentos, com betacaroteno, que era amarelado. Na década dos anos de 1930, pesquisadores descobriram que a vitamina A é formada pela conversão de betacarotenos na mucosa intestinal de animais e humanos.

O termo científico para vitamina A é retinol, por causa de sua presença nos olhos. A função do retinol na visão foi esclarecida por diversos cientistas brilhantes, a partir de 1877, como o alemão W. Kuhne, que descobriu que as retinas roxas de rãs adaptadas ao escuro se tornavam amarelas, quando expostas à luz. A coloração púrpura é restaurada em um ciclo bioquímico envolvendo vitamina A, que torna a visão possível. Outros cientistas demonstraram o papel da vitamina A na diferenciação celular, desenvolvimento ósseo, reprodução e na função do sistema imunológico. Weston Price confirmou a importância da vitamina A na alimentação tradicional durante seus estudos com povos primitivos, realizados entre os anos 30 e 40.

Devido ao trabalho científico destacado destes e de muitos outros pesquisadores, a administração de óleo de fígado de bacalhau para crianças em fase de crescimento, uma tradição entre os povos árticos, como escandinavos e esquimós, tornou-se prática padrão, até após a Segunda Guerra Mundial. Ironicamente, ao mesmo tempo em que os norte-americanos pararam de dar óleo de fígado de bacalhau a seus filhos, programas de administração de vitamina A para crianças na África e Ásia alcançaram sucesso impressionante na prevenção de cegueira e doenças infecciosas. Este programa de tratamento com aquela vitamina foi invenção de outro pesquisador bravo, Alfred Sommer, oftalmologista da Johns Hopkins University, que pacientemente fez lobby político em favor de um programa internacional, após verificar os efeitos maravilhosos da suplementação de vitamina A na Indonésia e Nepal.

Em décadas recentes, muita pesquisa acerca da vitamina A se concentrou em seu papel na prevenção de câncer e seu uso em combinação com terapias atóxicas no tratamento da mesma enfermidade. Infelizmente, pesquisa sobre as propriedades anti-carcinogênicas da vitamina A ainda não foram amplamente adotadas. Talvez, o exemplo mais trágico seja o do Dr. Max Gerson, que tratara de muitos casos de câncer terminal com resultados excelentes, usando suco de fígado cru, uma fonte rica de vitamina A. Em 1946, ele testemunhou diante de uma comissão do Congresso dos EUA sobre o sucesso de seu tratamento, mas foi seguidamente ignorado [3]. Em 1973, Dr. Kanematsu Sigiura, do Sloan Kettering Institute, publicou os resultados de estudos em tumores mamários de camundongos, usando doses altas de vitamina A e um derivado de sementes chamado laetrila [3]. Ele constatou regressão total de todos os tumores, em um total de cinco animais. O relatório final observou que “Dr. Sigiura jamais tivera observado semelhante regressão completa destes tumores em sua vasta experiência com outros agentes quimioterápicos”. Todavia, poucos meses mais tarde, o porta-voz do Sloan Kettering negou categoricamente existir algo de positivo na terapia [4].

O capricho da vitamina A

Ao mesmo tempo em que o processo em andamento de pesquisas sobre a vitamina A e seus efeitos é uma dádiva a crianças e adultos ao redor do mundo, a agricultura moderna e os conglomerados de processamento alimentício não têm nada a ganhar com este tipo de conhecimento. Práticas de criação por confinamento evitam firmemente a incorporação da vitamina A em alimentos de origem animal e usam prioritariamente óleos vegetais em detrimento de gorduras animais no processamento industrial. Alguns óleos vegetais contêm carotenos, mas não a verdadeira vitamina A. Apenas gorduras animais a possuem, presente em grande quantidade somente quando os animais obtêm uma fonte de carotenos ou da própria vitamina A em sua alimentação, como pastos verdes, insetos e carne de peixe.

Infelizmente, a grande maioria de livros populares a respeito de nutrição insiste em alegar que seres humanos podem obter vitamina A de frutas e vegetais. Pior ainda, as regulamentações da FDA[3] permitem fabricantes de alimentos processados rotularem carotenos como vitamina A. O rótulo de uma lata de tomates diz que tomates contêm vitamina A, mesmo sendo a única fonte real de vitamina A nos tomates partes microscópicas de insetos. A indústria alimentar e o pensamento nutricional acadêmico predominante que defende a alimentação com baixo teor de gordura, esta incentivada por aquela, beneficiam-se grandemente do fato de o público possuir apenas noções vagas a respeito da vitamina A. De fato, a maioria dos alimentos que fornecem grandes quantias desta vitamina (manteiga, gemas de ovo, fígado, carne de órgãos e frutos do mar) foi sujeitada a demonização intensa.

Sob as melhores condições possíveis, seres humanos podem, de fato, converter carotenos em vitamina A. Isto ocorre no trato intestinal superior por ação de sais biliares e enzimas decompositoras de gorduras. De toda a família dos carotenos, o betacaroteno é o mais fácil de ser convertido em vitamina A. Estudos precedentes indicaram equivalência de 4:1 entre betacaroteno e retinol. Em outras palavras, são necessárias quatro unidades de betacaroteno para produzir uma unidade de vitamina A. Esta taxa foi posteriormente revisada para 6:1, e pesquisa recente sugere taxa ainda maior [5]. Isto significa que você tem de comer uma imensa quantia de verduras e frutas para satisfazer as necessidades diárias mínimas de vitamina A, pressupondo-se a melhor conversão possível.

Mas a transformação de caroteno em retinol raramente é a melhor possível. Diabéticos e aqueles com função tiroidiana debilitada, um grupo ao qual poderia ser incluída, ao menos, metade dos adultos da população dos EUA, não podem realizar tal conversão. As crianças a fazem muito precariamente, e os bebês não a fazem de forma alguma. Devem obter seus preciosos estoques de vitamina A de gorduras animais [6], não obstante a alimentação com baixo teor de gordura ser comumente recomendada para crianças. Exercícios físicos intensos, consumo elevado de álcool e de ferro (principalmente contido na farinha refinada “enriquecida” e cereais matinais), uso de diversas drogas populares, consumo excessivo de ácidos graxos poli-instaturados, carência de zinco e até mesmo clima frio podem prejudicar a conversão de carotenos em vitamina A [7], assim como o faz a alimentação com baixo teor de gordura.

Os carotenos são convertidos por ação dos sais biliares, e pouca quantidade de bile chega ao intestino, quando a refeição é pobre em gordura. O gastrônomo que acrescenta manteiga em suas hortaliças e nata em sua sopa de componentes vegetais é mais sábio do que ele possa se dar conta. Óleo de manteiga estimula a secreção de bile, necessária para converter carotenos de vegetais em vitamina A, e ao mesmo tempo, provém com vitamina A verdadeira, muito facilmente absorvida. Óleos poli-insaturados também estimulam a secreção de sais biliares, mas podem causar degeneração rápida dos carotenos, a não ser que anti-oxidantes estejam presentes.

Portanto, não é prudente depender de fontes de origem vegetal para vitamina A. Este nutriente vital é necessário para o crescimento e reparo de tecidos orgânicos; ajuda a proteger as membranas mucosas da boca, nariz, garganta e pulmões; estimula a secreção de sucos gástricos necessários para a digestão adequada de proteína; ajuda a construir ossos e dentes fortes e sangue rico; é essencial para boa visão; auxilia na produção de RNA; e contribui para a saúde do sistema imunológico. Carência de vitamina A em mulheres gestantes resulta em prole com olhos defeituosos, rins desalojados, lábio leporino, palato fendido e anormalidades do coração e vasos sangüíneos distendidos. Os depósitos de vitamina A são rapidamente exauridos durante exercício, febre e períodos de distresse. Mesmo pessoas que podem converter eficientemente caroteno em vitamina A não podem, de maneira rápida e adequada, reabastecer os estoques de vitamina A através de alimentos de origem vegetal.

Alimentos ricos em vitamina A são especialmente importantes para diabéticos e aqueles que sofrem de problemas tireoidianos. De fato, a glândula tiróide necessita de mais vitamina A do que as outras glândulas e não pode funcionar sem ela [8]. Uma alimentação rica em vitamina A ajudará a proteger o diabético de problemas degenerativos relacionados a enfermidades, como problemas com a retina e com a cura.

Weston Price considerou as vitaminas lipossolúveis, principalmente a vitamina A, como as catalisadoras de que outros processos biológicos dependem [9]. É necessária quantia suficiente de vitamina A na alimentação para absorção e utilização eficazes de vitaminas hidrossolúveis. Sua pesquisa demonstrou que quantias generosas de vitamina A asseguram reprodução saudável e prole com rostos com ângulos atraentes, dentes corretos e corpos fortes e vigorosos. Ele descobriu que os primitivos saudáveis estimavam especialmente alimentos ricos em vitamina A para crianças em fase de crescimento e mulheres gestantes. A diferença de dez vezes a menor que Price descobriu entre a alimentação primitiva e a norte-americana na década de 40 é quase que, com certeza, maior atualmente, uma vez que os norte-americanos renegaram a manteiga e o óleo de fígado de bacalhau, a favor de poli-insaturados processados.

Em populações do Terceiro Mundo que tiveram contato com o Ocidente, a carência de vitamina A é amplamente propagada e uma das causas responsáveis pela alta taxa de mortalidade infantil, cegueira, atrofia, deformidades ósseas e suscetibilidade a infecções [10]. Tal ocorre até mesmo em populações que possuem acesso a abundância de carotenos em hortaliças e frutas. A escassez de laticínios de boa qualidade, rejeição a carne de órgãos como antiquado ou não saudável e substituição de gordura animal por óleo vegetal para cozimento são causas da degeneração física e sofrimento das pessoas daquela parcela do mundo.

Suprimento de vitamina A é tão vital ao organismo que os seres humanos são capazes de armazenar grande quantidade desta vitamina no fígado e outros órgãos. Portanto, é possível a um adulto subsistir com uma alimentação isenta de gordura por um período considerável de tempo, antes de sintomas visíveis de carência surgirem. Entretanto, durante momentos de distresse, os depósitos de vitamina A são rapidamente exauridos. Exercício físico intenso, fases de crescimento físico, gravidez, lactação e infecção são estresses que rapidamente esgotam os depósitos de vitamina A. Crianças com sarampo rapidamente exaurem a vitamina A, podendo resultar em cegueira irreversível. Intervalo de três anos entre gestações permite mães refazerem seus estoques de vitamina A, de forma que o filho seguinte não sofra de redução de vitalidade.

Um aspecto da vitamina A que merece maior destaque é sua função na utilização da proteína. Kwashiorkor[4] é uma doença devido a carência de vitamina A, levando a comprometimento de absorção de proteína, uma vez que é resultado de ausência de proteína na alimentação. Alimentação com alto teor de proteína e baixo de gordura é particularmente perigosa, porque o consumo de proteína exaure rapidamente os depósitos de vitamina A. Crianças criadas sob alimentação rica em proteína e pobre em gordura comumente crescem de forma rápida. Resultado: pessoas altas, míopes, lânguidas, com dentes encavalados entre si, estrutura óssea precária e um tipo de síndrome de Ichabod Crane[5] são lugar-comum nos Estados Unidos. Alimentação com muita proteína e pouca gordura pode até causar cegueira, como ocorrido, certa vez, na Guatemala, onde quantidades enormes de leite sem gordura de preparo instantâneo foram doadas em um programa de donativos [11]. As pessoas que consumiram o leite em pó ficaram cegas. Povos primitivos compreenderam este princípio instintivamente, sendo por que nunca consomem carne magra e sempre comem carnes de órgãos dos animais que lhes servem como alimento.

Crianças em fase de crescimento realmente se beneficiam de uma alimentação contendo consideravelmente mais calorias na forma de gordura do que de proteína [12]. Alimentação rica em gordura é rica em vitamina A, resultando em estrutura física forte, vigorosa, mesmo após de crescida, com alta imunidade a doenças.

A grande discrepância entre o que a ciência descobrira acerca da vitamina A e o que escritores sobre nutrição promovem nos meios de comunicação é uma das causas de momentos embaraçosos. O jornal The New York Times é forte defensor de alimentação com baixo teor de gordura, mesmo para crianças, embora um artigo recente deste jornal tenha observado que alimentos ricos em vitamina A, como fígado, gema de ovo, nata e frutos do mar conferem resistência contra doenças infecciosas em crianças e previnem câncer em adultos [13]. Um artigo do Washington Post laureou a vitamina A com “barata e eficiente, com maravilhas ainda por serem (re)descobertas”, observando que estudos recentes descobriram que suplementos de vitamina A ajudam a prevenir mortalidade infantil nos países do Terceiro Mundo, protegem vítimas de sarampo contra complicações graves e previnem transmissão do vírus HIV de mãe para filho [14]. O artigo lista manteiga, gema de ovo e fígado como fontes importantes de vitamina A, mas alega, infelizmente, que carotenos de vegetais são “igualmente importantes”.

O capricho da vitamina A confunde o público e se torna uma causas de aceitação perene do dogma do baixo teor de gordura, mesmo entre escritores científicos.

A safadeza da vitamina A

Pior ainda do que o capricho da vitamina A é a safadeza da vitamina A, na forma de preocupações de que esta vitamina seja tóxica em quantias maiores do que a minúscula recomendada pelo RDA[6]. De fato, tão grande é a propaganda contra esta vitamina que obstetras e pediatras atualmente advertem pacientes a evitar alimentos contendo vitamina A!

Recentemente, um grupo de médicos especialistas sugeriu a redução da dose diária recomendada de vitamina A de 5.000 IU para em torno de 2.500 IU e estabeleceu limite superior em cerca de 10.000 IU para mulheres. Tal grupo médico era liderado por Dr. Robert Russell, da Tufts University, que advertiu que a ingestão acima do “limite superior” pode causar dano irreversível ao fígado e defeitos congênitos, uma declaração disparatada, em vista ao fato de que, apenas poucas décadas atrás, rotineiramente aconselhavam-se mulheres grávidas a tomar diariamente óleo de fígado de bacalhau e a consumir fígado diversas vezes durante a semana. Uma colher de sopa de óleo de fígado de bacalhau contém, ao menos, 15.000 IU, e uma porção de fígado pode conter até 40.000 IU de vitamina A. Russell sintetiza a concepção da comunidade médica em geral, quando insiste em que a necessidade de vitamina A pode ser satisfeita com meia xícara de cenouras por dia.

A campanha anti-vitamina A começou em 1995, com a publicação de um estudo da Boston University School of Medicine, no New England Journal of Medicine [15]. “Teratogenicity of High Vitamin A Intake” [“Teratogenicidade devido à ingestão de grande quantidade de vitamina A”], de Kenneth J. Rothman e colegas, relacionando o consumo de vitamina A entre mais de 22.000 mulheres grávidas com defeitos congênitos ocorridos na prole seguinte. O estudo recebeu vasta cobertura da mídia, nas mesmas publicações que, anteriormente, haviam enaltecido os benefícios da vitamina A. “Study Links Excess Vitamin A and Birth Defects” [“Estudo liga excesso de vitamina A a defeitos de nascença”], de Jane Brody, apareceu na página frontal do New York Times, em 7 de outubro de 1995. Em 24 de novembro de 1995, o Washington Times reportou: “High doses of vitamin A linked to babies’ brain defects” [“Doses elevadas de vitamina A ligadas a defeitos cerebrais em bebês”].

Quando um único estudo recebe cobertura de primeira página, é importante olhá-lo bem de perto, principalmente porquanto pesquisa anterior descobrira a importância da vitamina A na prevenção de defeitos congênitos. De fato, os defeitos listados como mais frequentes com o aumento da dosagem de vitamina A (lábio e palato fendidos, hidrocefalia e malformação cardíaca) são também defeitos por carência de vitamina A.

No estudo, os pesquisadores solicitaram a mais de 22.000 mulheres responderem questionários sobre seus hábitos alimentares e ingestão de suplementos, antes e durante a gestação. Suas respostas foram usadas para determinar a conjuntura da vitamina A. Conforme descrito nos jornais, os pesquisadores descobriram que defeitos de crista neural craniana eram maiores com o aumento das doses de vitamina A. O que os jornais não relataram foi o fato de que defeitos de tubo neural diminuíam com o aumento do consumo de vitamina A e que nenhuma tendência a defeitos músculos-esqueléticos, urogenitais ou outras foi evidenciada. A tendência foi muito menos pronunciada e estatisticamente menos significante, quando defeitos da crista neural craniana foram relacionados com o consumo de vitamina A advinda apenas de alimentos.

O estudo é viciado por uma série de falhas. A situação da vitamina A foi estimada por método impreciso de recordação e questionário. Não foram realizados exames de sangue, para determinar-se o real quadro de vitamina A aproveitável das mães. Os pesquisadores não quantificaram defeitos congênitos de acordo com sua gravidade, portanto, não sabemos se os defeitos nos bebês nascidos de mães tomando dosagem alta de vitamina A eram sérios ou não, comparados com os das mães tomando quantias menores.

A falha mais grave foi que os pesquisadores não fizeram distinção entre a vitamina A manufaturada na forma de retinol, encontrada em suplementos e adicionada em alimentos fabricados, e o complexo natural da vitamina A, presente junto com numerosos cofatores, da vitamina A contida em alimentos. Sabe-se muito bem que vitaminas sintéticas são menos ativas biologicamente e, portanto, menos eficazes, do que as vitaminas naturais. Isto é verdadeiro, principalmente para vitaminas lipossolúveis, como a vitamina A, porque tendem a ser moléculas mais complexas, com numerosas ligações duplas e uma diversidade de formas. A vitamina A natural ocorre como uma mistura de diversos isômeros, aldeídos, ésteres, ácidos e álcoois. Ácido retinóico puro, um metabólito da vitamina A, usado para tratar de acne em adultos, é bem conhecido por causar defeitos congênitos. Aparentemente, retinol puro possui propriedades teratogênicas em quantias altas também.

Pesquisadores descobriram que defeitos de crista neural craniana aumentam na proporção da quantia de retinol em suplementos consumidos durante o primeiro trimestre de gestação (embora o número total de defeitos permaneceu estável até 15.000 IU diárias). Pesquisa com a vitamina A indicou que muitos fatores interferem em sua absorção e utilização. Gorduras inadequadas na alimentação, produção debilitada de sais biliares, conjuntura de baixa quantidade de enzima e função hepática comprometida podem influenciar na absorção e uso da vitamina A, principalmente quando ministrada como suplemento, na forma de retinol, ao invés de como um componente de alimentos integrais. Pode ser que os efeitos teratogênicos das fórmulas comerciais de vitamina A sejam exacerbados em mulheres cuja prática alimentar e estado geral de saúde são precários. Alguns pesquisadores acreditam que a vitamina A sintética interfere na utilização apropriada da vitamina A natural provinda dos alimentos.

Retinol puro é adicionado a muitos alimentos fabricados, como margarina, cereais matinais e pizza. O estudo não fez distinção entre mulheres que praticavam a suplementação de vitamina A por alimentos integrais de origem animal e aquelas que ingeriam retinol adicionado a margarina, farinha refinada e cereais matinais extrusados, alimentos que contêm muitos outros componentes que podem causar defeitos congênitos. A vitamina A natural, provida por fígado, ovos, manteiga e óleo de fígado de bacalhau é muito bem conhecida como excelente proteção contra defeitos congênitos.

As diferenças entre vitamina A sintética e natural estiveram completamente ausentes na cobertura midiática extensa deste estudo. Em contrapartida, houve matérias de jornais indicando avisos para mulheres grávidas evitarem o consumo de fígado, laticínios, carne e ovos, mas nenhum contra o consumo de alimentos industrializados, como margarina e cereais matinais, aos quais a vitamina A sintética é acrescentada. E não houve qualquer cobertura da mídia a estudos posteriores, descobrindo que índices altos de vitamina A não aumentavam o risco de defeitos congênitos. Um estudo realizado em Roma, na Itália, não observou malformações congênitas entre 120 bebês expostos a mais do que 50.000 IU de vitamina A por dia [16]. Um estudo suíço examinou os índices sangüíneos de vitamina A em mulheres gestantes e descobriu que dose de 30.000 IU diárias resultava em índices sangüíneos que não apresentavam associação a defeitos de nascença [17].

A escravidão da vitamina A

Enquanto, nos EUA, criam-se confusão e medo sobre a vitamina A, os programas de distribuição desta vitamina, realizados pela OMS e UNICEF, na África e Ásia, têm sido muito bem sucedidos na redução de cegueira e morte de crianças e adultos. Em termos de custo, a vitamina A é muito mais eficiente para se salvarem vidas e se prevenir sofrimento do que vacinações e remédios e pode ser administrada pelo valor de 2 centavos por comprimido. O programa não desvirtua tradições culturais ou alimentares e é facilmente executado em âmbito de vilas.

Mas este tipo de sucesso não é bem quisto pela indústria alimentar e farmacêutica, porque fortalece o estilo de vida das vilas e reduz o mercado consumidor para remédios e alimentos processados. Excessivas com louvor, as “grandes poderosas[7] do sistema de fornecimento alimentar internacional” se juntaram em uma “parceria entre setores público e privado” para ingressarem no programa [18]. Kellogg, Cargill, Monsanto e Procter & Gamble foram as pioneiras na adição de vitamina A na margarina, óleo vegetal, farinha de trigo, açúcar e cereais matinais. Até mesmo ao glutamato monossódico! Em um almoço formal organizado por Hillary Clinton, os executivos das empresas e chefes de diversos grupos de ajuda humanitária anunciaram sua meta de mostrar a “empresas alimentícias nativas… como adicionar vitamina A a alimentos consumidos por pessoas de baixo poder aquisitivo”. Em outras palavras, para usar vitamina A para promover alimentos processados aos aldeões da África e Ásia, à guisa de ajuda humanitária. Pessoas com baixa renda na América do Norte consomem margarina e outros alimentos processados, mas pessoas com baixa renda, no Terceiro Mundo, consomem alimentos cultivados por produtores e processados localmente por artesãos.

E, para o caso de as pessoas se recusam a consumir alimentos processados, as “grandes poderosas” planejaram outro estratagema: arroz geneticamente modificado para produzir carotenos. Quem promove o assim chamado arroz “dourado” como solução para o problema da vitamina A ou é terrivelmente ignorante ou descaradamente corrupto. Arroz dourado contendo carotenos não pode fornecer vitamina A verdadeira às crianças do mundo, mas intensificará a tendência de retirar seus pais de áreas rurais e alojá-los em favelas deploráveis.

No processo de se mostrar a “empresas alimentícias nativas… como adicionar vitamina A a alimentos…” e de se inserirem genes para produção de carotenos no arroz, as empresas multinacionais fortalecerão seu domínio no fornecimento de alimentos ao mundo, levando à destruição do estilo de vida nas vilas e ao que o escritor indiano Vandana Shiva chama de “ditadura alimentar”. Se os conglomerados conseguirem uma forma de agir, os programas para produção do arroz dourado e alimentos “enriquecidos” substituirão os programas de distribuição dos comprimidos de vitamina A, aumentando o sofrimento de crianças e a escravidão econômica em escala mundial.

O que nós, ocidentais, podemos fazer para evitar os planos nefastos do complexo alimentar e farmacêutico junto a nações menos prósperas do que as nossas? A resposta é simples: cortar-lhe o recurso financeiro diretamente na fonte, recusando-se a comprar seus produtos. Boicote alimentos processados. Evite remédios farmacêuticos. A melhor forma para atingir saúde física e econômica é através de alimentos contendo vitamina A.

Adendo

O sucesso da vitamina A

Um dos programas mais bem sucedidos da história da ciência nutricional é a campanha global de distribuição de comprimidos de dose alta de vitamina A para crianças da África e Ásia. Lançada em 1997, a campanha global é uma parceria entre a UNICEF e a Organização Mundial de Saúde (OMS), bem como os governos do Canadá, Reino Unido, Holanda, Japão e a Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos[8]. O programa foi particularmente exitoso no Nepal, onde grupos de mulheres locais, conhecidos como Comunidade de Mulheres Voluntárias da Saúde[9] ajudam a distribuir os comprimidos ao longo de todo o território acidentado. Em 2000, mais de 90% das crianças nepalesas receberam sua dosagem anual de vitamina A.

Embora a vitamina A distribuída seja sintética e não a forma natural, derivada de óleos de peixe, é a forma animal de vitamina A (retinol), não carotenos. Crianças de seis a doze meses de idade recebem duas doses de 100.000 unidades ao ano; crianças acima de 12 meses recebem duas doses de 200.000 ao ano. De acordo com Werner Schultink, chefe da Seção de Nutrição da sede da UNICEF em Nova Iorque, a taxa de mortalidade de bebês e crianças decai em acerca de 23%, quando os índices de vitamina A são adequados. O programa no Nepal custa um pouco mais do que 2 milhões de dólares ao ano, menos do que US$1 por criança (Reuter’s 2/12/01).

Conversão de carotenos em vitamina A

Dentre os muitos fatores que podem interferir na conversão de carotenos presentes em alimentos de origem vegetal em vitamina A estão:

  • ser bebê ou criança;
  • diabetes;
  • baixa função tiroidiana;
  • baixa ingestão de gordura;
  • nematódeos intestinais;
  • diarréia;
  • doença pancreática;
  • doença celíaca;
  • jito[10].

O mito da toxicidade da vitamina A

Típica da visão médica ortodoxa sobre a vitamina A é a seguinte declaração, publicada no WebMD.com: “A vitamina A pode ser muito tóxica, quando tomada em suplementos com alta dosagem por períodos longos de tempo e pode afetar quase todas as partes do corpo, incluindo olhos, ossos, sangue, pele, sistema nervoso central, fígado, genitais e trato urinário. Incluem-se nos sintomas tontura, náusea, vômito, cefaléia, danos à pele, distúrbios mentais e, em mulheres, rareamento menstrual. Toxicidade grave pode causar cegueira e até mesmo risco de morte. Danos hepáticos podem ocorrer em crianças que tomam a dose diária recomendada e aprovada a adultos por períodos longos de tempo ou em adultos que tomam quantia cinco vezes maior do que a dose diária recomendada e aprovada, por sete a dez anos. Em crianças, sobredose crônica pode causar acúmulo de fluido cerebral e outros sintomas semelhantes aos encontrados em adultos. Mulheres gestantes que tomam quantias nem tanto mais altas do que a dose diária recomendada têm o risco de defeitos congênitos aumentados em suas crianças. Consumo de grande quantia de vitamina A pode, ainda, aumentar o risco de câncer gástrico, de osteoporose e de fraturas em mulheres”.

O Manual da Merck descreve a toxicidade da vitamina A de uma forma menos histérica. Envenenamento agudo por vitamina A pode ocorrer em crianças, após tomarem uma dose única de vitamina A sintética em torno de 300.000 IU ou uma dosagem diária de 60.000 IU por algumas semanas. Foram registrados dois óbitos infantis devido a envenenamento agudo por esta vitamina, com manifestação de aumento de pressão intracraniana e vômitos. Todavia, para a grande maioria dos casos, a recuperação após a descontinuação é “espontânea, sem danos residuais”.

Em adultos, de acordo com o Manual da Merck, relatou-se caso de toxicidade da vitamina A em exploradores árticos que desenvolveram torpor, irritabilidade, cefaléias e vômitos, seguidos de descamação da pele, poucas horas após o consumo de muitos milhões de unidades de vitamina A, provenientes de carne de urso polar ou foca marinha. Mais uma vez, tais sintomas se dissiparam, pela descontinuação do uso de alimento rico naquela vitamina. Além deste exemplo incomum, apenas a vitamina A de “tabletes mega-vitamínicos, contendo vitamina A… quando ingeridos por período prolongado” induziu toxicidade aguda, ou seja, 100.000 IU de vitamina A diárias, tomadas por muitos meses.

A não ser que você seja um explorador ártico, é praticamente impossível você se intoxicar por vitamina A de alimentos. A suposta dosagem tóxica de 100.000 IU ao dia seria obtida de 3 colheres de sopa de óleo de fígado de bacalhau com alto teor de vitamina, 6 colheres de sopa de óleo de fígado de bacalhau comum, duas porções e meia de 100 g cada de fígado de pato, cerca de três porções de fígado bovino de 100 g cada porção, mais de 3 kg de manteiga ou 309 gemas de ovos. Mesmo a vitamina A sintética não é tóxica, quando ministrada em dose única ou em pequenas quantias diárias. Em áreas de população carente do mundo, são comumente administradas duas doses de 100.000 unidades de retinol por ano para bebês e duas dozes de 200.000 unidades para crianças acima de 12 meses de idade.

O trágico é que a preocupação desproporcional sobre a toxicidade da vitamina A levou médicos a advertirem mulheres grávidas a evitarem alimentos contendo aquela vitamina e pais a evitarem dar óleo de fígado de bacalhau para seus bebês, embora livros anteriores a respeito de alimentação de gestantes e bebês recomendassem doses generosas de óleo de fígado de bacalhau e consumo freqüente de fígado para mulheres grávidas e duas colheres de chá de óleo de fígado de bacalhau ao dia para bebês com três meses ou mais de idade. A maioria dos problemas médicos seria resolvida rapidamente, se o povo voltasse a comer fígado e retomasse o uso do óleo de fígado de bacalhau (nossos superalimentos maravilhosos).

Entendendo de maneira errada

“A vitamina A pode ser encontrada em óleo de fígado de peixes, fígado de animais e frutas verdes e amarelas e hortaliças”. — Prescription for Nutritional Healing [Prescrição para cura natural], de James F. Balch, MD e Phillis A. Balch, CNC. (Entretanto, os autores incluem o seguinte aviso, no final da seção sobre vitamina A: “Diabéticos e pessoas com hipotereoidismo devem evitar betacaroteno, porque não podem convertê-lo em vitamina A”).

“Costumava-se tomar óleo de fígado de bacalhau rotineiramente como fonte de vitamina A. Mas muitos especialistas atualmente acreditam que, como auxílio nutricional, este óleo é obsoleto. Podemos consumir vitamina A diretamente apenas de carne de animais, sendo o fígado a fonte mais rica. Entretanto, frutas lustrosas alaranjadas e legumes e verduras folhosas escuras contêm betacaroteno que nosso organismo converte naquela vitamina… Anteriormente ao tempo dos caminhões refrigerados e distribuição em massa de produtos, a carência de vitamina A era um problema imenso… Mas, atualmente, a maioria das pessoas possui acesso a ampla gama de produtos disponíveis o ano todo. Ademais, suplementos de betacaroteno também estão fartamente disponíveis”. – Artigo no WebMD.com, de Karen Cullen, RD, PhD.

“A vitamina A é encontrada em produto de origem animal e betacaroteno, um composto do gênero desta vitamina. É encontrada em pigmentos amarelos de vegetais… Se não necessário, permanece como betacaroteno; se necessário, é convertido em vitamina A… Suplementos de vitamina A não [são] necessários”. —Enhancing Fertility Naturally [Aumentando a fertilidade naturalmente], de Nicky Wesson.

“A vitamina A é encontrada na forma de betacaroteno em vegetais verdes folhosos, cenouras, batadas-doces, abobrinha-de-inverno e cantalupo, em quantias adequadas para suprir as necessidades diárias das crianças…”. — Dr. Attwood’s Low-Fat Prescription for Kids [Prescrição de baixo teor de gordura para crianças], de Dr. Charles R. Attwood.

“A toxicidade da vitamina A depende de sua forma. Apenas o retinol e outras variedades encontradas em alimentos de origem animal são capazes de fazer mal. Os carotenóides, as fontes de origem vegetal de vitamina A, não parecem ser tóxicos, mesmo quando quantidades extraordinariamente grandes são consumidas”. —The University of California San Diego Nutrition Book [Livro nutricional da Universidadade da Califórnia, campus de San Diego], de Paul Saltman, PhD, Joel Gurin e Ira Mothner.

“Os carotenos… são a fonte principal de vitamina A”. Basic Food Chemistry [Química alimentar básica], de Frank E. Lee, PhD.

“Vegetais amarelos, bem laranjas e bem vermelhos, hortaliças verdes-escuros e frutas… são ricas em vitamina A…”. —The Breast Cancer Survival Manual [Manual de sobrevivência ao câncer de mama], de John Link, MD.

“Se tomada em demasia, a vitamina A pode ser tóxica, uma vez que é armazenada no fígado. O betacaroteno, entretanto, não é convertido em vitamina A, a não ser que o corpo demande isto, e não tem como sofrer de taxas tóxicas dele”. —The Endometriosis Answer Book [Livro de respostas de endometriose], de Niels H. Lauersen e Constance deSwaan.

Vitamina A: o nutriente milagroso

A suplementação de vitamina A para crianças na Ásia e África foi extremamente eficiente na redução de infecção, diarréia, anemia e cegueira. (Reuter’s 2/12/01).

Crianças africanas e asiáticas, recebendo suplementos de vitamina A, cresceram mais rapidamente, possuem medições de hemoglobina melhores e morrem de 30% a 60% com menor freqüência do que suas contrapartes que não recebem suplemento (J Nutr Jan 1989 119(1):96-100).

A suplementação de vitamina A pode reduzir a incidência de malária. Crianças da Papua Nova-Guiné que receberam Crianças doses altas de vitamina A apresentaram incidência 30% menor de malária em relação àquelas que receberam placebo (The Lancet, 1999, 354:203-9).

A vitamina A desempenha função vital na regulação do sistema imunológico. A carência de vitamina A leva a perda de células ciliadas dos pulmões, uma primeira linha de defesa importante contra patógenos. A vitamina A promove secreção de mucina e formação de microvilosidades pelas mucosas, incluindo a do trato gastrointestinal. Aquela vitamina regula a produção de células-T e apoptose (morte celular programada) (Nutrition Reviews 1998;56:S38-S48).

A transmissão de HIV está fortemente relacionada com os índices de vitamina A nas mães. Um estudo em Malawi, na África, descobriu que mães com os mais altos índices de vitamina A apresentavam taxa de transmissão de apenas 7,2% (Celia Farber, “A Timely Firestorm”, www.ironminds.com).

Tratamento com mega-doses de vitamina A (100.000 IU por dia) resultaram em taxa de cura de 92% de menorragia (fluxo menstrual excessivo) no Johannesburg General Hospital, na África do Sul (S Afr Med J 1977).

Falta de vitamina A influencia no desempenho da função do hipocampo, a sede principal do aprendizado. Cientistas do Salk Institute for Biological Studies, em San Diego, Califórnia, descobriram que, eliminando-se a vitamina A da alimentação de camundongos, diminuem-se alterações químicas no cérebro, consideradas as marcas patentes do aprendizado e da memória (Proc Natl Acad Sci, Sep 25, 2001 98(20):11714-9).

A vitamina A natural ajuda a reconectar receptores retinóides fundamentais para a visão, percepção sensorial, processamento de linguagem e atenção em crianças autistas. O uso do óleo de fígado de bacalhau auxilia as crianças a se recuperarem do autismo causado pela vacina DPT. A toxina da coqueluche influencia nos receptores retinóides do cérebro (Med Hypothesis, Jun 2000 54(6):979-83).

A vitamina A pode ser útil no tratamento de psoríase. Pesquisadores descobriram que pacientes sofrendo de psoríase severa apresentavam índices sangüíneos baixos de vitamina A (Acta Derm Venereol Jul 1994 74(4):298-301).

As vítimas de derrame com índices mais elevados de vitamina A são mais propensas a se recuperarem sem danos (The Lancet, Mar 25, 1998, pp 47-50).

A vitamina A protege contra cânceres de pulmão e de bexiga em homens (Alt Cancer Inst Monogr Dec 1985 69:137-42).

Quatorze de vinte pacientes com câncer de próstata obtiveram remissão total; e cinco, remissão parcial, usando vitamina A como parte de terapia natural contra câncer na Alemanha (Drugs Exp Clin Res 2000;26(65-6):249-52).

A vitamina A foi usada com sucesso pelo Dr. L. J. A. Loewenthal para combater úlceras tropicais em Uganda (S Afr Med J Dec 24 1983 64(27):1064-7).

A vitamina A teve seu uso bem sucedido no tratamento de problema cutâneo chamado doença de Kyrle (Cutis Dec 1982 30(6):753-5, 759).

Idosos que consumem quantia adequada de vitamina A são menos propensos a úlceras de perna (Veris Newsletter Dec 1999;15(4):5).

Carência crônica de vitamina A causa degeneração das estruturas da orelha. Declínio da função auditiva em seres humanos está associado a baixos índices de vitamina A. (Arch Otorhinolaryngol 1982;234(2):167-73).

A vitamina A inibe os efeitos do ácido fítico e aumenta a absorção de ferro do trigo integral. (Arch Latinoam Nutr Sep 2000;50(3):243-8).

A suplementação de vitamina A aumenta a absorção de ferro e ácido fólico em mulheres de Bangladesh (Am J Clin Nutr Jul 2001;74(1):108-15).

O uso de suplementos de vitamina A reduz o risco de cataratas (Am J Ophthalmol Jul 2001;132(1):19-26).

Fontes de vitamina A

Abaixo, a quantia aproximada de vitamina A em alimentos comuns, em IU por 100 g:

  • óleo de fígado de bacalhau com alto teor de vitaminas: 230.000;
  • óleo de fígado de bacalhau comum: 100.000;
  • fígado de pato: 40.000;
  • fígado bovino: 35.000;
  • fígado de ganso: 31.000;
  • lingüiça de fígado de porco: 28.000;
  • fígado de carneiro: 25.000.

Notar que tais quantias variam, de acordo com a forma com que os animais são alimentados. Weston Price observou imensa variação do teor de vitamina A da manteiga, conforme a estação do ano. Adicionalmente, a absorção de vitamina A varia de acordo com o alimento. Uma pesquisa realizada durante a década de 1940 indicou que a vitamina A é absorvida mais facilmente da manteiga do que de outros alimentos.

A dose diária recomendada nos Estados Unidos de vitamina A é atualmente 5.000 IU por dia (e pode, possivelmente, ser reduzida para 2.500 IU diárias). Com base nos trabalhos de Weston Price, podemos assumir que a quantia desta vitamina na alimentação antiga era aproximadamente 50.000 IU por dia, que poderia ser alcançada na alimentação moderna, consumindo-se quantias generosas de leite integral, nata, manteiga e ovos de animais criados no campo e no pasto; fígado de boi ou de pato, várias vezes na semana; e uma colher de sopa de óleo de fígado de bacalhau normal ou 1/2 colher de sopa de óleo de fígado de bacalhau com alto teor de vitaminas diariamente.

Os betacarotenos são seguros?

Em doses grandes, os betacarotenos são seguros, conforme se alega? A dependência de carotenos para obtenção de vitamina A demanda grandes reservas de enzimas para sua conversão. Em seu livro fascinante, Nutrition and Evolution [Nutrição e evolução], Michael Crawford e David Marsh observam que, em animais, “se qualquer função pode ser delegada a outro organismo, isto deixa o espaço do disco livre para executar alguma função nova ou uma antiga de maneira melhor”. Os gatos não sintetizam vitamina A de carotenos. “Se tivessem que sintetizar sua própria vitamina A… isto tomaria uma porção significativa do espaço de seu disco”. Os gatos obtêm vitamina A de suas presas, cuja habilidade de sintetizar vitamina A de carotenos comprometem outras funções, como visão noturna e agilidade de movimento. Enquanto a ortodoxia médica alega que o consumo de grandes quantias de carotenos não apresenta um lado negativo, é possível que tal dependência a carotenos para obtenção de vitamina A, mesmo naqueles que são bons conversores, compromete outras funções bioquímicas, por vias não tão evidentes.

Os assim considerados suplementos atóxicos de betacaroteno contêm uma forma sintética deste elemento, de apenas um dos 50 ou 60 tipos de carotenos encontrados na alimentação típica. A atividade biológica do betacaroteno sintético é muito menor do que a dos complexos naturais de carotenos e, de fato, podem gerar distresse no sistema imunológico. Descobriu-se por estudos com seres humanos e ratos que consumiram betacaroteno sintético aumento nos glóbulos brancos. Em experimentos com câncer, betacarotenos sintéticos não se mostraram protetores. De fato, em um estudo, os pacientes a quem fora ministrado betacaroteno sintético apresentaram resultados piores do que os dos grupos de controle (NEJM April 1994 330:(15);891-895).

Referências:

  1. Price, Weston A. Nutrition and Physical Degeneration. Price-Pottenger Nutrition Foundation, San Diego, CA, p 280.
  2. The history outlined here has been expertly compiled by G Wolf. “A History of Vitamin A and Retinoids.” The FASEB Journal, July 1996, 10:1102-1107.
  3. Gerson, M., MD. A Cancer Therapy: Results of Fifty Cases. Totality Books, Del Mar, CA, 1958.
  4. Griffin, G. E. World Without Cancer. American Media, Westlake Village, CA, 1974, pp 462-3.
  5. Solomons, N. W. and J. Bulus. “Plant sources of provitamin A and human nutriture.” Nutrition Review, Springer Verlag New York, Inc, July 1993, 51:1992-4.
  6. Jennings, I. W. Vitamins in Endocrine Metabolism. Charles C. Thomas Publisher, Springfield, Illinois.
  7. Dunne, L. J. Nutrition Almanac, Third Edition, McGraw-Hill Publishing Company, 1990.
  8. Jennings, Op Cit.
  9. Price, Op Cit.
  10. Solomons, Op Cit.
  11. Personal Communication, Ruth Rosevear
  12. Protein calories should comprise about 15 percent of the diet. Fat calories in children’s diets should be greater than 40 percent of total calories.
  13. Angler, Natalie. “Vitamins Win Support as Potent Agents of Health,” New York Times, March 10, 1992.
  14. Brown, David. “It’s Cheap and Effective, With Wonders Still Being (Re)discovered.” The Washington Post, November 7,1994.
  15. Rothman, K. J. and others. “Teratogenicity of high vitamin A intake.” New England Journal of Medicine. November 23, 1995 333(21):1414-5.
  16. Mastroiacovo, P. and others. “High vitamin A intake in early pregnancy and major malformations: a multicenter prospective controlled study.” Teratology. January 1999 59(1):1-2.
  17. Wiegand, U. W. and others. “Safety of vitamin A: recent results.” International Journal of Vitamin and Nutrition Research. 1998, 68(6):411-6.
  18. Mann, J. “Saving Young Lives With a 2-Cent Capsule.” The Washington Post, March 17, 1999.

Artigo publicado na Wise Traditions in Food, Farming and the Healing Arts, revista trimestral da Weston A. Price Foundation, Inverno de 2001.

[1] Newfoundland. (Nota do Tradutor: NT)

[2] Who does not at night see right
Eats the liver of goat
He will then see better at night
. (NT)

[3] Food and Drug Administration. Agência governamental norte-americana, equivalente à ANVISA brasileira, que regula e fiscaliza a fabricação de comestíveis, drogas e cosméticos. (Fonte: Wikiédia.com. NT)

[4] Kwashiokor ou desnutrição intermediária é um tipo de doença decorrente da falta de proteínas e vitaminas, geralmente associada a consumo elevado de carboidratos (arroz, batata, milho, salgadinhos, doces etc.). (Fonte: Wikipédia.com. NT)

[5] Ichabod Crane é um personagem fictício e protagonista da curta estória de Washington Irving, The Legend of Sleepy Hollow [A lenda de Sleepy Hollow; no Brasil, conhecida como A lenda do cavaleiro sem cabeça], publicada originalmente em 1820. Apesar de magricela, é capaz de comer quantias impressionantes de comida e está sempre à procura disto. Ademais, é excessivamente supersticioso, freqüentemente ao ponto de acreditar em todos os mitos, lendas, contos fantasiosos etc. Como conseqüência, vive assustado com tudo que o lembre de fantasmas e demônios. (Fonte: Wikipédia.com. NT)

[6] Recommended Daily Allowance (Dosagem Diária Recomendada). Recomendações da Associação de drogas e alimentos norte-americana, no que diz respeito ao consumo de vitaminas, minerais e nutrientes básicos em geral. (Fonte: Wikipédia.com. NT)

[7] No original, big guns. (NT)

[8] United States Agency for International Development (USAID). (NT)

[9] Female Community Health Volunteers. (NT)

[10] Doença tropical, caracterizada por anemia e emagrecimento. (Fonte: Wikipedia.com. NT)

Jill Nienhiser has been a Weston A. Price Foundation member since 2001, and has provided web maintenance, editing, and proofreading support for westonaprice.org and realmilk.com for many years. She also helped launched the Farm-to-Consumer Legal Defense Fund in 2007.

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